OSCAR NIEMEYER
Olhar concreto
O maior museu do país,
com 33.000 m² de área construída,
foi entregue à população
de Curitiba, Paraná. O projeto, batizado
de NovoMuseu, é de Oscar Niemeyer, e
se integra a outra obra de sua autoria, o edifício
Castello Branco, uma escola construída
há 40 anos, de 200 m de comprimento e
30 m de largura, com vãos entre 30 m
e 60 m. A convite do governo do Paraná,
o mestre da arquitetura brasileira, além
de reformular a estrutura do prédio já
existente, com 27 mil metros quadrados, elaborou
o projeto de uma arrojada estrutura em concreto
armado, em formato de olho, que abriga agora
um monumental salão de exposições
de 2.100 m2, com pé-direito de 10,9 m
no ponto máximo.
Para não esconder
o Castello Branco e suas características
modernistas, com um pavimento sobre pilotis,
Niemeyer projetou o anexo ao lado da estrutura
existente. O "olho" é uma edificação
elevada, em duplo balanço, com 70 m de
comprimento e 30 m de largura. A cobertura,
de formato parabólico, está apoiada
numa torre central de 21 m de altura. Rampas
e uma passagem subterrânea fazem a ligação
entre os dois prédios. A ampla fachada
é revestida com vidro, e a edificação
parece flutuar sobre um espelho d'água.
A idéia de aproveitar
o edifício Castello Branco, que abrigava
nos últimos tempos diversas secretarias
de Estado, partiu do governador Jaime Lerner.
O NovoMuseu dispõe de 15.300 m²
destinados a exposições e está
inserido num complexo de 144.000 m², que
inclui um bosque e a Aldeia da Cultura, que
ocupa as edificações do Departamento
Estadual de Transporte Oficial (Deto), transformadas
em ateliês. Trata-se de um espaço
multidisciplinar que reúne artes plásticas,
arquitetura, design e urbanismo. Conta com ateliês
para os artistas residentes, auditório,
jardim de esculturas e amplas salas de exposições,
que abrigarão os acervos do Museu de
Arte do Paraná (MAP) e do Museu de Arte
Contemporânea do Paraná (MAC),
entre outros.
O NovoMuseu tem ainda
auditório para 400 lugares, uma sala
de 70 lugares, ateliês de restauro, oficinas
de marcenaria e pintura, docas para carga e
descarga, área de quarentena para obras,
controle de temperatura nos padrões internacionais,
circuito interno de televisão, café,
restaurante e espaços de lazer. A obra,
que integra o Programa de Valorização
Cultural do Paraná, exigiu investimentos
de US$ 13 milhões e foi construída
com recursos do programa Paraná Urbano
e do Banco Interamericano de Desenvolvimento
(BID).
Estrutura de impacto
O arrojo estrutural do anexo do NovoMuseu causa
impacto: uma superfície de 70 m x 30
m com duplo balanço, formado por duas
vigas protendidas e altura variável,
5,5 m na maior seção, apoiadas
em dois pilares de 9,10 m x 1,20 m vazados,
que descarregam em dois blocos de 160 m³
cada. Estes, por sua vez, coroam 112 estacas-raiz
de 30 cm de diâmetro, com capacidade de
100 toneladas cada. A obra conta ainda com elevadores,
monta-carga, shafts de utilidades e escadarias,
contidos entre os pilares e duas paredes curvas.
O formato de "olho"
é constituído por duas lajes curvas.
A inferior é apoiada em vigas transversais
invertidas protendidas e a superior, em vigas
longitudinais convencionais trabalhando à
compressão. Entre as duas lajes, encontra-se
a área de exposições, baseada
sobre a laje plana de 30 m x 70 m, apoiada sobre
vigas transversais protendidas. As fachadas
principais (frente e fundos da obra) são
formadas por painéis duplos de vidro
laminado de 10 mm, fixados em estrutura metálica.
Após análise
das estruturas do projeto do NovoMuseu, chegou-se
à conclusão de que eram bastante
similares a uma estrutura de ponte com pilares,
balanços com vigas protendidas, entre
outras semelhanças. "Os escoramentos
metálicos seriam fundamentais para o
sucesso do plano executivo, tanto no que se
refere ao dimensionamento estrutural, quanto
à logística de atendimento",
explica o engenheiro Marco Antonio Stavis, da
Cesbe, responsável pelo empreendimento.
Ao todo, foram utilizadas 700 t de estruturas
tubulares, pois não seria possível
o reaproveitamento de equipamentos nas diversas
fases, devido ao prazo apertado.
Cronograma cumprido
As obras do NovoMuseu foram realizadas pela
Cesbe, do Paraná, a mesma empresa que
havia construído o edifício Castello
Branco na década de 60. Apesar da familiaridade,
o desafio não foi menor, principalmente
em relação ao prazo: exatos 185
dias. "Pensamos muito antes de participar
da licitação da obra, não
pelas suas dimensões, mas pelo prazo
curtíssimo de execução,
de maio a novembro. Mas resolvemos aceitar o
desafio e vencemos a licitação",
conta o engenheiro Stavis.
Em razão disso,
o planejamento rigoroso foi a ferramenta que
possibilitou a entrega da obra no prazo estipulado.
A empresa utilizou recursos de computação
gráfica de última geração
para antecipar virtualmente as diversas fases
da construção, com o intuito de
motivar a equipe de trabalho e de obter dados
precisos para o planejamento. Por meio de uma
maquete eletrônica, todos os funcionários
envolvidos no projeto puderam vislumbrar a grandiosidade
da obra pronta.
"O passo seguinte
foi a elaboração de um planejamento
detalhado para alcançar os objetivos
propostos e chegar aos resultados desejados",
explica Stavis. A partir do prazo previsto,
os trabalhos foram divididos em etapas, com
datas parciais fixadas e diferentes métodos
construtivos. Depois de concluído o planejamento,
constatou-se que os prazos não seriam
atingidos caso o projeto fosse executado de
forma convencional (fundação,
pilares, vigas principais, etc.). A solução
seria dividir a estrutura em três partes
separadas por planos verticais e construídas
simultaneamente: a primeira seria a parte central,
que incluiu fundação, blocos,
pilares e escadaria, até a laje, e as
outras duas, as seções laterais,
formadas pelas vigas curvas inferiores. "As
três partes deveriam se encontrar na mesma
data, para que a estrutura principal (o olho)
tivesse um desenvolvimento contínuo",
descreve Stavis.
Para garantir a rapidez
necessária na troca de informações
entre consultores, projetistas, fornecedores
e instaladores, desde o início, a Cesbe
recorreu à tecnologia. Implantou um sistema
de acompanhamento fotográfico da construção
em seu site na Internet. As imagens das obras
eram imediatamente passadas via e-mail a todos
os envolvidos. "Esta iniciativa possibilitou
uma grande interatividade com o público
e com os fornecedores de outros Estados do Brasil",
explica Stavis. Oscar Niemeyer adotou com satisfação
a solução para conferir o andamento
de seu projeto, pois é avesso às
viagens de avião. De seu escritório
no Rio de Janeiro, o arquiteto acompanhava a
obra e se reunia com os responsáveis
pelo NovoMuseu por meio de teleconferências.
Concreto resistente
O volume de concreto fornecido para todo o complexo
do NovoMuseu totalizou 5.226 m3. Desse total,
foram utilizados concretos de várias
classes de resistência, variando entre
25 MPa e 40 MPa. O primeiro desafio foi a execução
dos dois blocos de fundação com
volumes de cerca de 170 m3 cada. O projeto especificou
a relação água/cimento
máxima de 0,50, que implicava num elevado
consumo de cimento, com aumento do calor de
hidratação do concreto e conseqüente
risco de fissuração da estrutura.
Por isso, optou-se pela utilização
do cimento tipo CP IV (cimento Portland Pozolânico)
de baixo calor de hidratação,
associado aos aditivos polifuncional e superfluidificante
de terceira geração, combinados.
Outra condição
especial foi a da estrutura do museu, especificada
para usar fck igual a 35 MPa e relação
água/cimento igual ou menor que 0,45,
e agregado de dimensão máxima
igual a 9,5 mm. Assim, o uso de aditivos especiais
também tornou-se obrigatório.
"Um fato marcante foi o controle tecnológico
do concreto, que apresentou, aos 28 dias de
idade, resultados de rompimento de corpos-de-prova
que atingiram a marca de 50,9 MPa. Os resultados
obtidos comprovam a qualidade dos materiais
utilizados, principalmente do cimento CP V ARI
RS, que, potencializados com uma baixa porosidade
proporcionada pela relação água/cimento
reduzida, resultaram numa estrutura que terá
uma vida útil superior a 300 anos",
acredita Stavis.
Esta especificação
de concreto e seus resultados permitiram uma
significativa redução nos prazos
de descimbramento e de protensão. Na
concretagem das lajes da área principal
foram utilizados equipamentos de nivelamento
a laser, além de desempenadeiras mecânicas,
de forma a se eliminar o contrapiso, excluindo
assim uma atividade posterior.
Um aspecto fundamental
para o sucesso do planejamento foi a execução
da laje curva da cobertura, com 70 m de vão
em arco, que dispunha de apenas 40 dias de prazo.
Oscar Niemeyer, fiel ao concreto armado, não
aceitou sua substituição por estrutura
metálica. Assim, as vigas em arco foram
executadas de forma convencional, apoiadas sob
o escoramento metálico, erguido sobre
a laje recém-concretada, ainda escorada.
Sobre as fôrmas das vigas foram instaladas
lajes protendidas, fornecidas pela DM Construtora
de Obras, com 3,5 centímetros de espessura,
sobre a qual foi concretada a laje convencional.
"Esta opção reduziu consideravelmente
o escoramento metálico, as atividades
de desforma e o acabamento inferior da laje,
atingindo o objetivo traçado. A retirada
do cimbramento deu-se em apenas cinco dias",
avalia Stavis.
Execução
da estrutura
Enquanto se desenvolvia a construção
da parte central, nas laterais era preparada
a infra-estrutura para o escoramento. De um
lado, a construção de um túnel
de ligação entre o anexo (olho)
e o prédio existente, o qual deveria
ser escorado. Do outro lado, as fundações
e pilares das passarelas curvas de acesso aos
prédios. Após a concretagem da
laje de fundação, o escoramento
seria montado em cada uma das partes, e sobre
ele seriam instaladas as fôrmas da laje
curva inferior e das vigas da superestrutura
e as respectivas armaduras.
Condições
peculiares do projeto estrutural, de autoria
de José Carlos Sussekind, incluíram
desafios no planejamento, tais como a protensão
parcial das vigas, segundo seqüência
previamente estabelecida; concretagem do arco
superior após o término dos trabalhos
de protensão e confirmação
dos parâmetros de projeto; acomodação
das vigas principais em balanço, que
subiriam cerca de seis centímetros nas
extremidades após a protensão
e voltariam à posição original
depois da retirada do escoramento do arco superior.
Este movimento das vigas
impediu a fixação definitiva das
estruturas metálicas de sustentação
dos painéis de vidro da fachada, inviabilizando
a fixação dos vidros em forma
de losango nas esquadrias de alumínio
(structural glazing) até a estabilização
das vigas. "O sistema de esquadrias utilizado
é diferente de tudo o que foi feito até
hoje", lembra Stavis. De acordo com as
exigências de Oscar Niemeyer, chegou-se
à seguinte solução: cada
fachada é formada por uma estrutura de
aço revestida nos dois lados por painéis
de vidros. Entre os vidros, há um brise
tipo "colméia", constituído
por hexágonos de alumínio. Ambos
os lados do structural glazing são constituídos
de vidros laminados na cor cinza.
Ficha
técnica
Projeto de arquitetura – Oscar Niemeyer
Projeto estrutural – José Carlos
Sussekind
Construção – Cesbe S.A.
Engenharia e Empreendimentos
Consultor de estruturas protendidas –
Odenir Muller
Controle tecnológico do concreto - Bianco
Tecnologia de Concreto
Concreto usinado em central – Concrebrás
Escoramento metálico – Mills
Aço – Belgo Mineira
Corte e dobra de aço – CCA
Lajes pré-fabricadas - DM Construtora
de Obras
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