ENTREVISTA RENATO JOSÉ GIUSTI
Os pavimentos de concreto duram mais de 50 anos
Leia a entrevista
exclusiva do presidente da ABCP à Revista
Engenharia

Engenheiro metalúrgico,
com 25 anos de experiência como executivo
de grandes empresas (como a Votorantim, onde
atualmente ocupa uma diretoria), o presidente
Renato Giusti, da ABCP, diz que as perspectivas
para os pavimentos de concreto são otimistas,
citando casos exemplares como o Rodoanel Mario
Covas e a Rodovia dos Imigrantes, ambos em São
Paulo, a BR 232, em Pernambuco, e a BR 290,
no Rio Grande do Sul. Segundo ele, esses pavimentos
são projetados para durar 30 anos, sem
manutenção. Mas acabam durando
meio século, senão mais.
A entrevista da presente
edição da REVISTA ENGENHARIA
(nº 565 – ANO 62 – novembro
2004) é com Renato José
Giusti, presidente da Associação
Brasileira de Cimento Portland, ABCP, entidade
de caráter técnico da indústria
do cimento no país. Giusti é engenheiro
metalúrgico formado em 1971 pela Faculdade
de Engenharia Industrial,FEI, e tem cursos de
especialização em marketing e
mercado. É também vice-presidente
do Sindicato Nacional da Indústria do
Cimento, SNIC, e reúne experiência
de mais de 25 anos como executivo de grandes
organizações, em especial da Votorantim
Cimentos, onde ocupa uma de suas diretorias.
Além disso, é membro do Conselho
Deliberativo da Associação Brasileira
de Normas Técnicas, ABNT; conselheiro
do Instituto Brasileiro do Concreto, Ibracon;
membro do Fórum de Competitividade da
Construção Civil do Ministério
do. Desenvolvimento, Indústria e Comércio
Exterior; e membro da Comissão da Indústria
da Construção da Federação
das Indústrias do Estado de São
Paulo, CIC/Fiesp.
Numa das abordagens da
entrevista, perguntamos a Giusti se, com o mercado
do petróleo "pegando fogo"
lá fora - o que faz mudar cada vez mais
a estrutura de custo do asfalto -, não
seriam promissoras as perspectivas de escolha
do concreto para a pavimentação
de estradas daqui para a frente. Sua resposta
denota o equilíbrio com que costuma conduzir
suas ações: "O pavimento
de concreto é uma opção
de pavimentação tão competente
quanto às demais alternativas".
Segundo ele, trata-se de uma solução
duradoura para vias de tráfego pesado,
repetitivo, intenso e canalizado como as rodovias
federais, as BRs, marginais e corredores de
ônibus, por exemplo. E isso independe
do custo do asfalto.
O presidente da ABCP
comenta, a propósito, que o setor está
tratando de ampliar o emprego do pavimento de
concreto na malha rodoviária nacional,
aumentando assim a segurança, a solidez
e a economia de custos de nossas rodovias. "Isso
pode evitar o apagão logístico
que tanto prejudica o escoamento de nossa produção,
como, por exemplo, a perda de grãos",
diz.
A ABCP foi fundada em
1936 com o objetivo de promover estudos sobre
o cimento e suas aplicações. É
uma entidade sem fins lucrativos, mantida voluntariamente
pela indústria brasileira do cimento,
que compõe seu quadro de associados.
Reconhecida nacional e internacionalmente como
centro de referência em tecnologia do
cimento, a entidade tem usado sua expertise
para o suporte a grandes obras da engenharia
brasileira e para a transferência de tecnologia
das mais diversas formas. Alguns exemplos dão
uma idéia da abrangência de sua
atuação: promoção
de cursos de aperfeiçoamento e formação,
seminários e eventos técnicos;
parceria com dezenas de universidades, escolas
e instituições de pesquisa do
país; apoio às indústrias
de produtos à base de cimento; publicação
de livros, revistas e documentos técnicos;
suporte à geração de normas
técnicas brasileiras, no âmbito
do CB-18.
Segundo o presidente
Giusti, a nova postura da indústria brasileira
do cimento, posicionando-se estrategicamente
como parte da extensa cadeia da construção
civil, levou a ABCP - como o braço técnico
da indústria - a rever atividades, a
buscar colaborações mais intensas
e diversificadas com os setores, elos e agentes
que integram o conjunto que se convencionou
chamar de construbusiness. A atuação
da ABCP, nesse sentido, tem sido maciça
- diz. Essa manifestação ocorre
por meio de ações e parcerias
que favorecem a oferta de produtos e sistemas
altamente competitivos, que podem ser reunidos
em dois grandes núcleos: edificações
e infra-estrutura.
Giusti explica que as
áreas de interesse do cimento são
amplas: arquitetura, projeto e obra, e administração
pública. Na arquitetura, pela sua versatilidade
na aplicação e flexibilidade no
acabamento, os produtos à base de cimento
são grandes aliados do arquiteto no processo
criativo. Nos casos de projeto e obra, a resistência,
durabilidade e segurança são fatores
essenciais no projeto da edificação,
e são justamente essas algumas características
dos produtos à base de cimento, que dispõem
de normas técnicas avançadas e
grande investimento em pesquisa e novos materiais.
Na administração pública,
cite-se que uma cidade, por menor que seja,
apresenta diversas necessidades - habitação,
saneamento, pavimentação - que
podem ser atendidas por sistemas cimentícios.
Mesmo vivendo os reflexos
da queda do mercado de cimento nos últimos
anos, o setor está otimista em relação
a 2004, principalmente pelo viés de estabilidade
nas finanças públicas que o governo
está imprimindo à sua política
econômica. Mas Giusti prefere não
falar de aspectos de mercado, mantendo-se coerente
com o escopo eminentemente técnico da
entidade que preside. A seguir, a íntegra
da entrevista.
1)
REVISTA ENGENHARIA - O senhor pode descrever
a trajetória histórica do cimento
no mundo e no Brasil?
GIUSTI - O produto mais próximo
ao que conhecemos hoje como cimento, surgiu
na Europa no início do século
19. Um construtor inglês, Joseph Aspdin,
obteve a patente de um material acinzentado
obtido da queima de uma mistura de calcário
e argila, o qual denominou cimento Portland,
nome dado pela similaridade da dureza e cor
do produto com a pedra da Ilha de Portland,
empregada nas construções daquela
época. É bem provável que
esse material não tivesse as características
do cimento atual, devido à precariedade
do fomo utilizado, mas é importante enfatizar
que, apesar dos grandes avanços tecnológicos,
o princípio básico da fabricação
permaneceu o mesmo. Já no Brasil, o cimento
Portland começou a ser produzido em 1926,
na extinta Companhia Brasileira de Cimento Portland,
de Perus, em São Paulo, muito embora
saibamos que algumas experiências pioneiras
foram realizadas antes no próprio Estado
de São Paulo e também no Espírito
Santo e Paraíba. E já em meados
da década de 1930, as importações
representavam menos de 5% do consumo total.
A
indústria brasileira do cimento sempre
acompanhou a evolução da construção
civil no país, oferecendo novos produtos,
de qualidade e normalizados, para as diversas
inovações tecnológicas
surgidas e empregadas. Atualmente o Brasil conta
com um parque industrial cimenteiro que compete
com os mais avançados do mundo [Topo]
2)
REVISTA ENGENHARIA - Discorra sobre a evolução
do cimento Portland no Brasil, até o
atual estágio em que existem cinco opções
básicas (com algumas variações)
de cimento nacional no mercado. Os tipos de
cimentos acompanharam a crescente sofisticação
da construção civil como um todo?
GIUSTI - Sem dúvida houve uma
grande evolução. Na verdade, a
indústria brasileira do cimento sempre
acompanhou a evolução da.construção
civil no país, pela oferta de novos produtos,
de qualidade e normalizados, para as diversas
inovações tecnológicas
surgidas e empregadas. Atualmente o Brasil conta
com um parque industrial cimenteiro que compete
em todos os aspectos com os mais avançados
do mundo. O setor, no país, tem instalações
industriais de alta tecnologia, que permitem
aproveitar de maneira consciente os recursos
naturais, respeitando o meio ambiente. Temos
as mais baixas taxas de consumo energético
por quilograma de cimento produzido e tecnologia
sofisticada que garante padrões internacionais
de emissão. A preocupação
da indústria cimenteira com a qualidade
do seu produto e, por conseqüência,
com a normalização técnica,
remonta à época da criação
da própria Associação Brasileira
de Normas Técnicas, ABNT, em 1940, pois
foram sobre cimento, e também sobre concreto,
as primeiras Normas Brasileiras, como a EB-1,
de especificação de cimento Portland;
a MB-1, de métodos de ensaios de cimento
Portland; e a NB-1, de projeto e execução
de estruturas de concreto. [Topo]
3)
REVISTA ENGENHARIA - De quando remonta a marca
de conformidade ABNT da indústria de
cimento?
GIUSTI - A indústria de cimento
também foi o primeiro setor a possuir
marca de conformidade ABNT para seu produto,
em 1977. Deve-se destacar também a intensa
participação do setor nas Comissões
de Estudo da ABNT, sobretudo do Comitê
Brasileiro de Cimento, Concreto e Agregados
- o CB-18 -, desenvolvendo e revisando especificações,
novos métodos de ensaios ou procedimentos,
defendendo sempre as melhores práticas
da engenharia nas cerca de 280 normas para cimento
e concreto regulamentadas pelo CB-18. A ABCP
também contribui para o desenvolvimento
do setor da construção dando suporte
técnico. São quase sete décadas
de trabalhos ininterruptos. Dispõe de
modernos laboratórios na área
de cimento e concreto, contando com um corpo
técnico altamente especializado que dá
suporte a fabricantes e consumidores do produto. [Topo]
4)
REVISTA ENGENHARIA-Quantos tipos básicos
de cimento existem?
GIUSTI - Atualmente, são produzidos
cinco tipos básicos - CP I, CP lI, CP
III, CP IV e CP V - e diversos subtipos ou tipos
específicos que resultam em 13 produtos
distintos, independentemente de marca ou classe
de resistência. Todos, sem exceção,
atendem às normas vigentes e às
aplicações mais distintas e diversas
e integram quaisquer dos sistemas e soluções
construtivas empregadas hoje na construção
civil, sejam os pisos intertravados para passeios
públicos, estacionamentos e vias urbanas,
ou a alvenaria estrutural com blocos de concreto
para as edificações, ou ainda
os pré-fabricados, pré-moldados
e artefatos de concreto, como também
os pavimentos de concreto, as estruturas de
concreto e os revestimentos de argamassa, as
barragens de concreto compactado com rolo, os
tubos de concreto para as obras de saneamento
entre tantos outros sistemas. [Topo]
5)
REVISTA ENGENHARIA – Como foi a evolução
no que se refere ao uso de adições
ao cimento?
GIUSTI - No Brasil, o cimento Portland
de alto forno, empregando a escória básica
granulada de alto forno, começou a ser
produzido e utilizado em 1952 e o cimento Portland
pozolânico, empregando as cinzas volantes,
no final dos anos 1960. Esses cimentos só
puderam ser fabricados devido a alta qualidade
do clinquer produzido pelas indústrias
nacionais, que aceitam a inclusão dessas
adições sem alteração
das características principais do cimento
comum, como por exempIo a resistência
mecânica. Normas brasileiras rigorosas,
amplamente estudadas e preconizadas pela ABNT,
regem desde então a produção
e aplicação desses cimentos, encontrados
regionalmente em função da disponibilidade
local das adições que mencionei.
Igualmente rigorosas são as normas ABNT
que classificam e qualificam as adições
permitidas para adicionar aos cimentos.
As
adições são as escórias
básicas granuladas de alto forno e as
cinzas volantes. Antes de serem aproveitados
pela indústria de cimento, esses materiais
geravam grandes passivos ambientais. Agora,
são reaproveitados na produção
de cimento, desde que as adições
e o produto final resultante cumpram as normas
preconizadas pela ABNT
[Topo]
6)
REVISTA ENGENHARIA - Qual a importância
das adições do ponto de-vista
estritamente ecológico? Quais os principais
resíduos utilizados para isso?
GIUSTI - Como disse, as adições
são as escórias básicas
granuladas de alto forno e as cinzas volantes.
Antes de serem aproveitados pela indústria
de cimento, esses materiais geravam grandes
passivos ambientais. Agora, são reaproveitados
na produção de cimento, desde
que as adições e o produto final
resultante cumpram as normas vigentes, preconizadas
pela ABNT. [Topo]
7)
REVISTA ENGENHARIA - Qual a principal diferença
entre os tipos de cimento em termos de aplicações?
GIUSTI - Antes de tudo é preciso
esclarecer, para não dizer reforçar,
que todos os cinco tipos de cimento Portland
- CP I, CP lI, CP III, CP IV e CP V - são
adequados para qualquer estrutura. Entretanto,
alguns, como mencionei, são mais recomendáveis
para determinadas aplicações.
Por exemplo, os cimentos Portland de alto forno
e pozolânicos, CP III e CP IV, respectivamente,
são também indicados para a construção
de barragens, fundações, tubos
e canaletas expostos a líquidos agressivos,
obras submersas ou de zona costeira entre outras.
O cimento Portland de alta resistência
(CP V) é indicado para aplicações
em que o requisito de elevada resistência
às primeiras idades é fundamental,
como na indústria de pré-moldados.
São
muitos os fatores que influenciam as características
do concreto: a dimensão dos agregados,
as proporções utilizadas, a umidade
dos agregados, a utilização ou
não dos aditivos químicos, o desempenho
físico-mecânico do cimento. Não
existe uma"receita" de traços
e sim metodologias para determinação
da dosagem, o traço
[Topo]
8)
REVISTA ENGENHARIA - Qual a importância
da definição do "traço"
para um bom desempenho na execução
de uma obra? Que" arte" é preciso
dominar para a determinação do
traço ideal para cada caso?
GIUSTI - O concreto é o resultado
da mistura íntima e adequada de cinco
componentes: cimento Portland, areia, pedra,
água e aditivos químicos, estes
últimos, se necessários. O traço
do concreto é exatamente a relação
quantitativa entre cada um desses componentes.
O concreto deve ser dosado de forma específica
de acordo com sua finalidade e forma de aplicação.
São muitos os fatores que influenciam
as características do concreto, tais
como a dimensão dos agregados, as proporções
utilizadas, a umidade presente nos agregados,
a utilização ou não dos
aditivos químicos, o desempenho físico-mecânico
do cimento etc. Portanto, não existe
uma "receita" de traços de
concreto. Existem, sim, metodólogias
para determinação da dosagem -
ou do traço - que reúnam a maior
economia e a máxima trabalhabilidade,
resistência, e principalmente, durabilidade.
[Topo]
9)
REVISTA ENGENHARIA - O que é processo
de adensamento?
GIUSTI - É o processo de compactação
do concreto feito, usualmente, por vibração,
com a finalidade de acomodar os agregados e,
principalmente, expulsar grande parte do ar
presente na mistura, minimizando o ingresso
e a ação de agentes agressivos
no concreto e contribuindo para o alcance das
mais elevadas resistências mecânicas.
Atualmente existem os concretos auto-adensáveis,
com características autonivelantes, que
por serem extremamente fluidos dispensam ou
minimizam a necessidade de vibração.
[Topo]
10)
REVISTA ENGENHARIA - O que é processo
de cura?
GIUSTI - O concreto só endurece
porque é hidratado. E algumas patologias,
como fissuras, surgem porque o concreto não
fica em contato com a água pelo tempo
que deveria. A cura é exatamente isso:
o processo que consiste em deixar o concreto
em contato com a água para garantir a
hidratação do cimento e suas reações
químicas, que resultarão no desenvolvimento
das resistências mecânicas e sua
estabilidade volumétrica. Conforme o
tipo de obra, a cura pode ser feita por molhagem
freqüente da superfície do concreto,
cobertura com sacos de cimento ou aniagem, camada
de areia mantida úmida, ou ainda, cobertura
com lonas plásticas ou aspersão
com produtos de cura química, com formação
de película para impedir a evaporação
de água. [Topo]
11)
REVISTA ENGENHARIA - Quais os principais tipos
de patologias que podem surgir quando os processos
de adensamento e cura não são
bem executados?
GIUSTI - Se o concreto não for
curado e ficar exposto à insolação
e ventos, desde seu estado fresco, é
provável que haja o aparecimento de fissuras
que o deixarão vulnerável a agentes
agressivos, comprometendo sua durabilidade.
Por outro lado, a própria falta de hidratação
vai resultar em perda de desenvolvimento da
resistência, que pode chegar a 30%, em
média. Tudo isso me obriga a salientar
que a escolha do cimento mais indicado e normalizado,
a dosagem correta, o adensamento adequado, a
cura ideal, entre tantas outras atividades que
integram a produção e aplicação
do concreto, são fruto da adoção
das melhores práticas na engenharia.
E a adoção dessas melhores práticas
é dever de toda a cadeia da construção,
desde os projetistas, tecnologistas - em especial
- das concreteiras e construtoras.
Qualquer
rua pode ser específicada em concreto,
no entanto o que determina a sua competitividade
econômica é o volume e peso de
seu tráfego e o tipo de solo. Por esse
motivo, em ruas residencíais, onde predomina
o tráfego leve, muitas vezes o pavimento
de concreto pode não ser a opção
mais adequada do ponto de vista econômico
[Topo]
12)
REVISTA ENGENHARIA - Com o mercado do petróleo
"em chamas", muda cada vez mais a
estrutura de custo do asfalto. Diante desse
cenário, supõe-se que o concreto
se mantenha estável. Quais, então,
as perspectivas de aumento da escolha do concreto
para a pavimentação de estradas?
GIUSTI - O pavimento de concreto é
uma opção de pavimentação
tão competente quanto às demais
alternativas, e é uma solução
duradoura para vias de tráfego pesado,
repetitivo, intenso e canalizado como as rodovias
federais (as BRs), marginais e corredores de
ônibus, por exemplo. E isso independe
do custo do asfalto. Os pavimentos de concreto
são projetados para durar 30 anos, sem
manutenção. E acabam durando 50
anos, senão mais. Quanto às perspectivas,
elas são otimistas. O Rodoanel Mario
Covas e a Rodovia dos Imigrantes, ambas em São
Paulo, a BR 232 em Pemambuco, a BR 290, no Rio
Grande do Sul, hoje são uma realidade.
Estamos tratando de ampliar o emprego do pavimento
de concreto na malha rodoviária nacional,
aumentando assim a segurança, a solidez
e a economia de custos de nossas rodovias, evitando
o apagão logístico que tanto prejudica
o escoamento de nossa produção,
corno, por exemplo, a perda de grãos.
[Topo]
13)
REVISTA ENGENHARIA - Há possibilidades
de que ruas e avenidas também sejam crescentemente
especificadas em concreto?
GIUSTI - Qualquer rua pode ser especificada
em concreto, no entanto o que determina a sua
competitividade econômica é o volume
de tráfego, o peso desse tráfego
e ainda, o tipo de solo. Por esse motivo, muitas
vezes, em ruas residenciais, onde predomina
o tráfego leve, o pavimento de concreto
pode não ser a opção mais
adequada do ponto de vista econômico.
Porém, há outras alternativas
para essas vias, corno os pisos intertravados
e o concreto compactado com rolo, CCR, corno
camada de rolamento, hoje empregados no Brasil.
Entretanto nas vias que apresentem as condições
que eu já citei - tráfego pesado,
repetitivo, intenso e canalizado - corno as
marginais, os corredores de ônibus, entre
outros, o custo inicial chega a ser praticamente
o mesmo de outras alternativas, considerando
que no longo prazo - custo final, após
30 anos o pavimento de concreto resulta até70%
mais econômico. [Topo]
14)
REVISTA ENGENHARIA - Além das possíveis
vantagens no que tange a preço, quais
outras vantagens técnicas do pavimento
de concreto?
GIUSTI - São várias. Como
já disse, o pavimento de concreto dura
mais de 30 anos, quase sem necessidade de reparos,
proporcionando economia para o poder público.
A economia de combustível pode chegar
a até 20% para os veículos pesados
e carregados que trafegam nele. É mais
seguro para o usuário, pois não
cria buracos e nem trilhas de roda, e necessita
de urna distância para frenagem menor,
principalmente em pisos molhados. Soma-se a
isso a não ocorrência de aquaplanagem,
causa de inúmeros acidentes. Por ser
de cor clara, economiza energia e retém
menos calor. A construção é
ágil e o tráfego pode ser liberado
em questão de horas. É resistente
ao derramamento de combustíveis, óleos
e graxa, às chuvas e a altas temperaturas.
Apresenta excelente conforto de rolamento, cabendo
neste caso, às construtoras, o papel
fundamental de bem executá-los, com o
emprego dos mais modernos equipamentos, hoje
amplamente disponíveis no Brasil. [Topo]
15)
REVISTA ENGENHARIA - Especificamente, quais
as vantagens do concreto no que se refere à
manutenção posterior?
GIUSTI - Na pavimentação
de concreto a manutenção é
mínima. A manutenção se
resume a reselagem das juntas a cada dez anos
ou mais, dependendo do material empregado. A
maior vantagem, no entanto, é que a verba
economizada em manutenção poderá
ser usada na pavimentação de novas
rodovias, contribuindo assim para a melhoria
da logística nos transportes e para a
redução do Custo Brasil, todos
fundamentais para o desenvolvimento econômico
do país. [Topo]
16)
REVISTA ENGENHARIA - Quando foi fundada a Associação
Brasileira de Cimento Portland e quais são
seus principais objetivos?
GIUSTI -
Conscientes da importância do concreto
no desenvolvimento' do Brasil, um grupo de visionários
industriais do setor fundou, em 1936, a Associação
Brasileira de Cimento Portland corno forma de
somar esforços - de maneira formal e
organizada - para o melhor emprego do cimento
Portland, tanto técnica como economicamente.
A ABCP, após quase 70 anos, evoluiu e
se tornou um centro de excelência em tecnologia
e inovação que trabalha pela expansão
do mercado brasileiro dos sistemas à
base de cimento. Para tanto, desenvolve e promove
soluções técnicas que atendam
aos consumidores, sejam fabricantes de produtos
derivados ou empreendedores da indústria
da Construção Civil. Os laboratórios
da ABCP, credenciados pelo INMETRO e com certificação
ISO 9001:2000, são o grande suporte para
as inovações tecnológicas
do setor, instrumento de pesquisa e apoio para
teses de mestrado e doutorado. Paralelamente,
a função de educadora da ABCP,
deve ser ressaltada. De fato o aperfeiçoamento
e treinamento de pessoal nas mais variadas técnicas
começaram na ABCP ainda na década
de 1950, já com cursos de tecnologias
básicas de concreto, e atualmente somando
mais de 30 cursos de maior extensão para
a formação de especialistas em
aplicações específicas.
Atualmente a ABCP tem como uma das metas principais
atuar no fomento de capacitação
e integração da cadeia da construção
civil a partir de estudos, experiências,
práticas e tecnologias de sistemas construtivos.
Não por outra razão, está
presente em eventos e com ações
contributivas no construbusiness, no Comitê
Nacional de Desenvolvimento Tecnológico
do Ministério das Cidades, levando propostas
e projetos sociais como a Habitação
1.0 (habitação de interesse social)
entre outros. Tenho ó costume de dizer
que "ninguém faz nada sozinho"
e essa frase tem norteado as ações
que temos desenvolvido com a cadeia da construção.
Tenho certeza de que o setor e a ABCP não
desviarão dessa premissa, que muito tem
contribuído para o desenvolvimento de
relações técnicas e comerciais
seguras, transparentes e vitoriosas em prol
da qualidade e do engrandecimento da cadeia
da construção civil, que representa
16% do PIB brasileiro. [Topo]
17)
REVISTA ENGENHARIA - Quantos associados a ABCP
têm hoje?
GIUSTI - No total são 10 grupos
cimenteiros. São eles: Camargo Corrêa
Cimentos, Cimento Itambé, Cimento Nassau,
CP Cimento, Cimpor, Ciplan, Holcim, Lafarge,
Soeicom e Votorantim Cimentos. [Topo]
18)
REVISTA ENGENHARIA - Quais os principais projetos
voltados para o uso racional dos recursos naturais
ou à recuperação do meio
ambiente que a ABCP participa?
GIUSTI - O cuidado com o meio ambiente
sempre foi uma prioridade e está dentro
do projeto de desenvolvimento sustentável
do setor. Os projetos de uso racional ou de
recuperação do meio ambiente são
contínuos e rigorosos nas unidades de
fabricação. A ABCP desenvolve
programas de pesquisa para a destruição
final de resíduos industriais em fornos
de cimento, usados como combustíveis
alternativos, preservando os recursos energéticos.
Essa atividade é conhecida como co-processamento
de resíduos em fornos de cimento. Entre
esses resíduos, merece destaque os pneus
inservíveis que hoje são queimados
nos fornos de cimento, contribuindo para reduzir
mais esse passivo ambiental, além de
reduzir possíveis focos de doença.
A
ABCP teve entre seus dirigentes e técnicos,
eméritos engenheiros e profissionais,
como Ary Torres, Telemaco van Langendonck e
Prestes Maia. Tem, além disso, estreito
vinculo com a Universidade de São Paulo
e com o Instituto de Pesquisas Tecnológicas-
o IPT -, formando recursos humanos altamente
qualificados em seus modernos laboratórios
[Topo]
19)
REVISTA ENGENHARIA - Como aABCP se tornou um
centro de referência em tecnologia do
cimento?
GIUSTI -
Some a tudo que eu lhe já disse na resposta
de sua pergunta sobre a fundação
da ABCP, que tivemos entre nossos dirigentes
e técnicos, eméritos engenheiros
e profissionais, como Ary Torres, Telemaco van
Langendonck e Prestes Maia dentre tantos outros.
Além disso, nosso estreito vínculo
com a Universidade de São Paulo e com
o Instituto de Pesquisas Tecnológicas
- o lPT -, permitiu a formação
de recursos humanos altamente qualificados em
seus modernos laboratórios, bem como
a liderança no campo de pesquisa e controle
tecnológico do cimento e de seus produtos
derivados. Não bastasse isso, devo lembrar
que a ABCP é uma das fundadoras da ABNT,
porque normalização é fundamental
no desempenho das funções da indústria
e nas relações com o mercado.
Nossa palavra de ordem é qualidade.
[Topo]
20)
REVISTA ENGENHARIA - Como é feito o processo
de transferência de tecnologia na ABCP?
GIUSTI - É feito por meio de convênios
e cursos de profissionalização
técnica. Só em 2003, para dar
um exemplo, a Associação ministrou
114 cursos, profissionalizando cerca de 3000
pessoas. Desde 1954, realiza treinamentos voltados
aos profissionais da área de construção
civil. Até hoje, a entidade formou mais
de 30 000 pessoas. A ABCP faz parcerias com
entidades como Sebrae, Senai, Ibracon, Sinduscon
e escolas nacionais de engenharia e arquitetura,
disponibilizando conteúdo técnico,
material didático e treinando os professores
para tornarem-se multiplicadores de tecnologias.
Dispõe ainda da mais completa biblioteca
da América Latina sobre cimento e concreto,
aberta ao público em geral e de um serviço
gratuito de atendimento ao cliente, denominado
Disque Cimento e Concreto, que esclarece toda
e qualquer dúvida àqueles que
fazem uso do cimento, além do nosso site
(www.abcp.org.br).
Recentemente, a ABCP idealizou o movimento Comunidade
da Construção, um programa que
une toda a cadeia da construção
civil a partir dos Sinduscon' s e seus associados
- as construtoras - para aumentar a competitividade,
produtividade e qualidade dos sistemas à
base de cimento empregados nas edificações.
Com esse movimento, a ABCP tem alcançado
com os parceiros da cadeia, resultados surpreendentes
de integração e aperfeiçoamento
de toda a tecnologia empregada na construção
civil, aumentando a produtividade e competitividade
dos sistemas à base de cimento, em especial
das estruturas de concreto. As conquistas do
movimento podem ser vistas no site (www.comunidadedaconstrucao.com.br).
A
ABCP idealizou o movimento Comunidade da Construção,
um programa que une toda a cadeia da construção
civil a partir dos Sinduscon's e seus associados
- as construtoras - para aumentar a competitividade,
produtividade e qualidade dos sistemas à
base de cimento empregados nas edificações
[Topo]
21) REVISTA
ENGENHARIA - Quais os principais cursos promovidos
pela entidade?
GIUSTI -
Os cursos - de formação, informação
ou especialização, com duração
de 8 a 120 horas - visam promover os sistemas
construtivos, disseminar a cultura e garantir,
ao mercado, profissionais altamente qualificados
que possam desenvolver obras e projetos de qualidade
otimizando o uso do cimento e as melhores práticas
recomendadas. Em função da variedade
de cursos disponíveis, a ABCP é
considerada um centro de formação
completo sobre o melhor uso e aplicações
do cimento e seus derivados. Entre os temas
discutidos estão: solo-cimento, tecnologia
básica de concreto, alvenaria estrutural
com blocos de concreto, artefatos de cimento,
pavimentos de concreto, pavimentos intertravados
com blocos, argamassa de assentamento e de revestimento,
entre outros.
[Topo]
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