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23/05/2014

A Indústria do Cimento e o Desenvolvimento do Brasil

 

Por Yushiro Kihara (ABCP) e Gonzalo Visedo (SNIC)

 

O Brasil é um país com dimensões continentais. São mais de 7 mil quilômetros de costa marítima, fronteiras com 10 países diferentes e uma área de 8,5 mil quilômetros quadrados. Foi dentro deste cenário que a indústria brasileira de cimento começou a desenvolver-se, primeiro em São Paulo, em 1926, e depois no Rio de Janeiro. Com um começo tímido no inicio do século XX, a produção nacional ultrapassou as importações a partir de 1933. A indústria brasileira iniciou, então, um processo consistente de consolidação e crescimento.

Foi nos anos 70, entretanto, que o chamado “milagre econômico” impulsionou a indústria do cimento, estimulada pelos inúmeros projetos habitacionais e de infraestrutura da época. Em apenas 10 anos, o consumo per capita passou de 100 para 227 kg por habitante. Nesse mesmo período, a produção de cimento triplicou, saltando de 9 para 27 milhões de toneladas anuais, e foram instaladas 24 novas fábricas para abastecer essa crescente demanda.

Hoje o país atravessa um novo ciclo de crescimento, iniciado a partir de 2004, e conta com 87 plantas industriais cimenteiras, controladas por 17 grupos industriais. Essas plantas têm capacidade instalada de 86 milhões de toneladas/ano e produziram 70 milhões de toneladas em 2013, fazendo do Brasil o sexto maior produtor e quarto maior consumidor de cimento do mundo.

 

A Crise do Petróleo e o Processo de Modernização do Parque Nacional

A indústria cimenteira brasileira se destaca atualmente no cenário internacional como uma das mais bem posicionadas em termos de baixa emissão de carbono e de eficiência energética. Essa posição, reconhecida pela Agência Internacional de Energia, foi conquistada graças a ações iniciadas décadas atrás e que vêm se ampliando e consolidando ao longo de vários anos.

O caminho para atingir essa produção de forma sustentável tanto do ponto de vista econômico quanto ambiental foi marcado por diversos desafios. No final da década de 70, a crise energética com que se deparava o país, como decorrência da elevação dos preços internacionais do petróleo, levou o Governo Federal a buscar soluções para conter a importação de petróleo e derivados, dos quais o Brasil era altamente dependente, substituindo-os por energéticos de origem nacional.

Dentre as soluções propostas, um protocolo assinado em 1979 entre o Governo, o Setor de Cimento e o de Extração do Carvão tinha como desafio reduzir o consumo de óleo combustível na indústria cimenteira, intensiva em energia, substituindo-o pelo carvão nacional. Era criado o Protocolo do Carvão.

O documento visava criar condições e implementar medidas que propiciassem o desafio de reduzir ao máximo e no mais curto prazo possível o consumo de óleo combustível no setor de cimento brasileiro.

Dos compromissos então assumidos pela indústria resultou a modernização do parque industrial, com a conversão do processo “via úmida” para “via seca” em diversas unidades, garantindo economia de quase metade do consumo de combustíveis.

Além disso, a instalação de equipamentos de redução de consumo energético, a intensificação no uso de adições ao cimento, como escórias de alto forno, cinzas de usinas termoelétricas e argilas calcinadas, a busca por fontes alternativas de energia, como biomassa, e o desenvolvimento de queimadores para vários tipos de combustíveis, com tecnologia 100% nacional, foram outros resultados obtidos para um melhor aproveitamento da energia pelo setor.

Em outras palavras, tudo que se exige hoje da indústria cimenteira mundial como meios de mitigação de emissões e de redução do uso de fontes de energia não renováveis começou como resposta ao desafio lançado pelo Protocolo de 1979. O Governo Federal, por sua vez, comprometeu-se e desenvolveu diversos programas de apoio às iniciativas.

Naquela época, as emissões de CO2 não eram o centro das preocupações. Mas as ações executadas desde então tiveram papel determinante para alçar a indústria do cimento brasileira entre as menos poluentes, se antecipando na busca por um mundo mais sustentável.

O problema hoje já não é mais o óleo combustível, que praticamente deixou de ser utilizado. E o carvão mineral não se tornou o seu substituto. Além de o nacional ser de baixíssimo poder calorífico, inadequado, o grau de emissão dessa fonte de energia não recomenda seu uso em grande escala. Contudo, outras fontes alternativas passaram a ser buscadas e utilizadas, como o coprocessamento de resíduos e o maior uso de biomassa.

 

O Cimento e a Discussão Climática

Nos dias de hoje, felizmente, a questão ambiental já é uma realidade e as mudanças climáticas, suas causas e consequências, têm sido o tema dominante dessa agenda nos últimos anos. Para a indústria do cimento constitui também um tema de máxima relevância, uma vez que a emissão de CO2 é intrínseca ao seu processo produtivo, seja com a transformação química da matéria-prima em cimento, seja com a queima de combustíveis utilizados para possibilitar essa transformação.

Estudos internacionais apontam que aproximadamente 5% das emissões de CO2 de origem antrópica no mundo provêm da produção de cimento (no Brasil esse valor corresponde a 1,4%, de acordo com o último Inventário Nacional de Gases de Efeito Estufa, divulgado em 2010). Por sua vez, a previsão de demanda por cimento, principalmente nas economias emergentes como o Brasil, é de aumentar substancialmente nas próximas décadas, fazendo da gestão de carbono uma questão prioritária para o setor.

O tema também tem ganhado força nos últimos anos no Brasil. No âmbito federal, foi aprovada em 2009 a Política Nacional de Mudanças Climáticas, que estabeleceu compromisso de redução, voluntária, de 36% a 39% das emissões totais brasileiras projetadas para 2020.

A regulamentação desta Política, em 2011, estabeleceu diversos Planos Setoriais, dentre eles o Plano Indústria, com o objetivo de reduzir em 5% as emissões de CO2 de todo o setor industrial.

Nas esferas estaduais, a discussão climática também tem se capilarizado rapidamente. Até o momento, 14 dos 26 Estados brasileiros já possuem uma Política Estadual de Mudanças Climáticas, sendo três com meta específica de redução (SP, RJ, PB), conforme ilustra o mapa abaixo.

 

 

Pilares da Sustentabilidade

A indústria do cimento brasileira ocupa hoje posição de referência no combate aos gases de efeito estufa, graças a uma série de características do processo produtivo, além de diversas ações adotadas pelo setor, algumas alavancadas a partir da transformação industrial durante a crise do petróleo do final da década de 70, outras mais recentemente. São elas:

 

• Eficiência Energética

O setor no Brasil possui hoje um parque industrial moderno e eficiente, com instalações que operam com baixo consumo energético e consequentemente uma menor emissão de CO2 quando comparado a outros países.

Praticamente todo o cimento no país é produzido por via seca, garantindo significativa diminuição do uso de combustíveis em relação a outros processos menos eficientes. Além disso, pré-aquecedores e pré-calcinadores reaproveitam os gases quentes para pré-aquecer a matéria-prima previamente à entrada do forno, diminuindo ainda mais o consumo de combustíveis. Os fornos via seca com pré-aquecedores e pré-calcinadores, no Brasil, são responsáveis por cerca de 99% da produção de cimento.

Comparativamente, segundo último levantamento da CSI – Cement Sustainability Initiative, em escala mundial os fornos via seca com pré-aquecedor (e com ou sem pré-calcinador) representam somente 87%.

 

• Combustíveis Alternativos

Além dos combustíveis tradicionais utilizados pela indústria do cimento, como coque de petróleo, óleo combustível e carvão mineral, é cada vez mais crescente o uso de combustíveis alternativos no Brasil, através do coprocessamento de resíduos e da utilização de biomassa.

A queima de resíduos através do coprocessamento tem aumentado consideravelmente a partir dos anos 2000. Atualmente, são coprocessados pela indústria do cimento no Brasil mais de 1 milhão de toneladas de resíduos por ano, representando cerca de 8% da matriz de combustíveis. Contudo, o setor possui um potencial de destruição de aproximadamente 2,5 milhões de toneladas, o que representa uma alternativa significativa para mitigação das emissões de CO2.

 

O Brasil também é o país que mais utiliza biomassa na produção de cimento, também conforme levantamento da CSI abaixo, com pouco menos de 12% de participação na sua matriz energética.

Essa biomassa é constituída, principalmente, por carvão vegetal e, secundariamente, por resíduos de agricultura como palha de arroz.

 

• Adições ao Clínquer

A indústria nacional tem tradição no uso de cimentos com adições. O aproveitamento de subprodutos de outras atividades e matérias-primas alternativas é realizado há mais de 50 anos no país, prática que só recentemente vem sendo mais adotada no mundo.

A produção de cimentos com adições ao clínquer, com materiais como escórias de alto forno, cinzas volantes, pozolanas artificiais e fíler calcário, além de diversificar as aplicações e características específicas do cimento, propicia a redução das emissões de CO2, uma vez que diminui a produção de clínquer e, consequentemente, a queima de combustíveis e a emissão da descarbonatação.

Além disso, os cimentos com adições representam uma solução ambientalmente correta para subprodutos de outros processos produtivos, como escórias siderúrgicas e cinzas de termelétricas. Tudo isso atendendo, acima de tudo, às especificações das Normas Técnicas do país.

 

A crescente utilização de adições no Brasil tem representado uma das mais eficazes medidas de controle e redução das emissões de CO2 da indústria. O país apresenta a menor relação clínquer/cimento e, consequentemente, o maior percentual de adições utilizadas, colocando mais uma vez o Brasil como referência internacional na busca por cimentos com menor emissão.

 

Desafios da Indústria do Cimento Brasileira

No caso particular da indústria do cimento brasileira, a conjunção desses pilares ajudou a posicionar o setor entre os mais eficazes no controle de suas emissões, apresentando os menores níveis de CO2 por tonelada de cimento produzida, segundo o levantamento da CSI – Cement Sustainability Initiative.

 

Essa condição diferenciada, entretanto, limita o potencial de redução das emissões do setor, em virtude do grau de excelência já alcançado, como já anteviu a Agência Internacional de Energia no gráfico abaixo. Esse desafio, no entanto, representa uma motivação adicional para a indústria do cimento brasileira na busca por alternativas que possibilitem intensificar ainda mais a mitigação de suas emissões.

Um Olhar para o Futuro – The Brazilian Cement Technology Roadmap

Atenta à revolução climática que o Brasil e o mundo atravessam, a indústria brasileira do cimento, está trabalhando no que será a versão brasileira do Cement Technology Roadmap, estudo global elaborado em 2009 pela International Energy Agency – IEA, em parceria com o World Business Council for Sustainable Development – WBCSD, primeiro no mundo a projetar um cenário de redução potencial de emissões de um setor específico em um horizonte até 2050. A exemplo daquele feito recentemente na Índia, o projeto brasileiro também contará com a participação destas duas reconhecidas entidades.

Tudo isso pensando, acima de tudo, no grande desafio da indústria do cimento brasileira, que é atender à crescente demanda por cimento no país para a construção da infraestrutura necessária ao seu desenvolvimento, mantendo as suas já baixas emissões específicas de CO2, que a colocaram entre as mais eficientes do mundo.


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